O Simão sempre se considerara uma espécie de Ansel Adams de t-shirt laranja. Para ele, fotografar não era um simples passatempo: era uma missão. Uma missão de enquadramento, luz, ângulo e, sobretudo, de uma paciência que nem sempre era partilhada pelos seus companheiros de viagem.
Naquele dia, sob um céu de um azul quase ofensivo, encontrou finalmente o ponto de observação perfeito, na varanda da ponte. Calções bege de combate, bolsa a tiracolo impecavelmente ajustada e os óculos devidamente posicionados, preparou-se para imortalizar a paisagem. Atrás dele, porém, o grupo começava a dar sinais de que a arte tinha limites.
— Simão, vamos? — Calma! A luz está quase no ponto. O enquadramento pede tensão dramática!
E lá continuou ele, por vezes inclinado sobre o varandim, em posições que desafiavam simultaneamente a gravidade, a ergonomia e a paciência dos amigos.
Passaram-se quase trinta minutos entre pequenos ajustes, respirações suspensas e uma sucessão impressionante de cliques. Finalmente, o Simão baixou a máquina com a solenidade de quem acabara de criar uma obra-prima.
— Pronto. Esta é a fotografia da minha vida.
Aproximou o rosto do ecrã, ampliou a imagem ao máximo e ficou subitamente imóvel.
— Encontraste uma águia rara? — perguntou um dos amigos, já sem grande esperança. — Não... (murmurou, algo emocionado.) Descobri uma nova constelação.
Os outros aproximaram-se. Não era uma constelação. Era um minúsculo grão de poeira, perfeitamente centrado no meio do céu azul, colado ao vidro da lente. E, para tornar tudo ainda mais memorável, aparecia exactamente no mesmo sítio nas 147 fotografias que Simão tinha tirado.
O Simão contemplou a imagem durante alguns segundos. Depois, com a serenidade de um verdadeiro artista, desligou a máquina, ajeitou a bolsa ao ombro e declarou:
— A verdadeira arte está em aceitar as imperfeições do cosmos. — Simão... — disse um dos amigos. — Isso não é o cosmos. É sujidade na lente.
Ele ficou em silêncio. Olhou novamente para a fotografia.
— Pois é. Mas está muito bem enquadrada.
E começou finalmente a caminhar.
Atrás dele, os amigos seguiram-no em silêncio, já resignados à ideia de que, naquele dia, tinham perdido mais de trinta minutos à espera de uma fotografia que tinha como protagonista... um grão de pó.